Este ano, muito se falou dos 50 anos de carreira do Roberto Carlos, até o apoteótico show no Maracanã, sábado passado.
Não ouvia RC há algum tempo. Vi poucas partes do show pela televisão, mas foram mais do que suficientes para chegar a uma conclusão: acredito que o título de rei só sirva para coroá-lo como o cantor brasileiro que mais vendeu discos no mundo. Tanto a qualidade de sua obra, como a real importância de seu trabalho, são questionáveis. Lembro que vivemos em um país em que a riqueza cultural não é valorizada e que "artistas?" como Calypso e Padre Marcelo Rossi são campeões de vendas. País em que escritores medíocres fazem parte da Academia Brasileira de Letras. Não citarei exemplos, pois quero manter a polêmica apenas na música. Prefiro não partir para o campo da autoajuda, também. Digo, da literatura.
Confesso que esperava um espetáculo interessante, mas, ao ver o show, fiquei decepcionado com a pobreza harmônica e melódica dos arranjos. Não gosto de rótulos, mas se tivesse que definir a música de Roberto Carlos, lançaria mão do termo "brega", com louvor.
A partir de 1965, Roberto Carlos começou a apresentar o programa Jovem Guarda, na TV Record, com Erasmo Carlos e Wanderléa. Enquanto Chico cantou Apesar de você, Cálice e Construção, Geraldo Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores, Caetano, Gil e Tom Zé fundaram a Tropicália, RC e seus amigos cantaram Calhambeque Bi-bi, É Proibido Fumar, Namoradinha de um Amigo Meu etc. Músicas divertidas. Porém, irrelevantes.
A diversão e o lazer são imprescindíveis, claro. Além disso, o descomprometimento político é compreensível. O próprio Tropicalismo foi criticado por isso, mas seus expoentes afirmavam que apenas a experiência estética já era um instrumento social revolucionário. Agora, elevar um cantor mediano e sem a relevância de verdadeiros artistas que o Brasil tem de sobra à categoria de rei é demais, a meu ver.
Nem na categoria roqueiro ele se enquadra. Roberto Carlos não passou nem perto do Rock`n Roll. Basta ouvir Mutantes. Espero que minha mãe não leia este post, pois ela adora RC. Mãe, quero deixar claro que não desgosto do seu amado Roberto Carlos. Apenas não acho que ele mereça o título de rei.
Termino com a seguinte pergunta: se Roberto Carlos não tivesse tanta exposição na TV Globo, ele seria considerado o Rei?
9 Comments:
Subscribe to:
Postar comentários (Atom)





O tal "rei" do pop já não fazia jus a esse título devia ter uns 15 anos. Morreu virou deus e todo mundo esqueceu o monte de cagada que ele andou fazendo nos últimos tempos, sob a justificativa de traumas do passado. Também não gosto das músicas do Michael Jackson, mas tenho que respeitar o que o cara representou pra música nos EUA e no mundo.
Será que se Jackson, ao invés do inglês, cantasse em português ou espanhol faria todo o sucesso que fez? Duvido. Viva a indústria cultural. Essa sim é POP!!!
Não tenho nada contra músicas de amor. Pelo contrário. Adoro as do Chico Buarque. Compare a obra de Chico com a de RC. Na verdade, não tem comparação. Chico faz música de verdade, com extrema qualidade.
Comparado a Chico, RC é tão profundo quanto uma poça de água de chuva.
Minhas avós eram apaixonadas por ele. Para elas, chamá-lo de Rei era justo. Para nós, não. Acho até que sentimos falta de termos alguém por quem possamos cultivar uma adoração (no bom sentido, claro) desta intensidade. Não temos ídolos duradouros, temos ex-BBB's.
Eu gosto das músicas do RC. Gosto mais ainda das do Michael Jackson. Só não os considero reis. Criticá-lo por uma aparente distância de toda a revolução cultural que eclodia na época me faz pensar no que a nossa geração tem feito para derrubar toda a injustiça de que reclamamos mais do que agimos.
Simples, rápido e direto - como prometi! :)
Minha linha de pensamento está mais alinhada com a opinião do Duda. Mas o post do Mattheus também é bem coerente.
Eu, particularmente, acho que o título de Rei para Roberto Carlos é absolutamente justo. Pode parecer fácil, mas conseguir o nível de popularidade que ele teve é muito difícil. Se fosse fácil, teríamos muitos Reis por aí.
Sobre o show de sábado, tive a mesma sensação do Mattheus. Achei os arranjos musicais pobres, sem empolgação. Mas conheço, como todos, aqueles clássicos e sei que na versão original eles são bem melhores.
Não estou aqui dizendo que RC é perfeito, longe disso. Hoje em dia, também acho ele bem brega, mas é inegável sua importância. Na época da Jovem Guarda, ele foi sim Rock And Roll.
Acho que é isso. O que acho também é que música é tão foda que não dá pra ficar medindo a verdade, a relevância e a importância que cada uma carrega.
Bem, minha opinião é semelhante a do Duda. Não sei se nossa geração, felizmente, clama por um algo mais, especialmente no que diz respeito a cultura. Partindo desta conjetura, podemos qualificar Roberto Carlos como bom.
Mas, caro Mattheus, acontece que estamos carentes de ídolos nacionais. Hoje, no Brasil, quem é o seu ídolo? Acho até que você, coerente e lúcido que é, tem alguns poucos ou tantos. Ou não. Isso é outra discussão, mas, sem deixá-la de lado, a gente pode encontrar a resposta para o questionamento sobre Roberto Carlos. Pô, o cara completou meio século de carreira. E, numa boa, ninguém chega a status de Rei sem, no mínimo, ser bom.
Mas ok, a sociedade, muitas vezes influenciada pela mídia, pode exagerar. Mas aí, volto a questão que deixei no parágrafo acima. Estamos carentes de ídolos. A geração que hoje venera RC também venera Chico, Wanderléa, Erasmo Carlos. E, hoje, mesmo não mais no auge da forma, RC representa muito para nossos avós, tios, pais e até alguns de nós, os mais jovens. Não que ele seja maravilhoso, ou mesmo rei. Mas, frente a carência de novos músicos talentosos que vivemos, acatar RC não é nenhum exagero, a meu ver.
Michael Jackson morreu faz tempo e ainda é assunto de primeira página em muitos tablóides. Que ela era fantástico compondo, cantando e dançando, não resta a menor dúvida. Mas a empolgação sobre o drama da morte dele serve, involuntariamente, para apagar certos pontos ainda não esclarecidos sobre a vida particular dele.
Nós, brasileiros, temos um péssimo defeito: só enxergamos o bom fora do Brasil. Tudo bem, em tempos de presidente analfabeto, desfaçatez na política e uma série de escândalos em outras esferas, faz sentido a gente exigir um algo mais. Mas não podemos também deixar de reconhecer nossos poucos e bons talentos.
Não sei se respondi à pergunta. Mas fica aqui minha modesta opinião.
Não compartilho desta teoria. Tô mais pra Nietzsche.
Claro que existem artistas (pessoas absolutamente normais, como eu e você) que admiro muito, como alguns que citei no post: Chico, Tom Zé, Mutantes etc.
Além de não gostar de classificações como rei e ídolo (apesar de saber que existem), também não gosto da palavra fã. Me lembra fanatismo.
Abraços.